Terapia e TCC

Psicólogo ou psiquiatra: qual procurar primeiro?

Você está mal há um tempo e finalmente decidiu procurar ajuda.
Aí aparecem duas palavras, psicólogo e psiquiatra, e nenhuma explicação de qual delas é a sua.
Cada site que você abre organiza a diferença de um jeito.
E a decisão continua parada com você, que já estava sem energia para decidir qualquer coisa.

A resposta curta: os dois cuidam de saúde mental e os dois avaliam, cada um pelo método da sua área. O que a psicóloga não faz é prescrever medicamento nem indicar internação, e é aí que a fronteira está. Na maior parte das vezes a pergunta certa não é qual dos dois, é se você precisa de um ou dos dois.

O que cada um faz, na prática

A psicóloga escuta, avalia, aplica testes psicológicos quando o caso pede e conduz a psicoterapia. O trabalho é sobre como você pensa, sente e age, e sobre o que mantém o sofrimento funcionando na sua rotina.

O psiquiatra é médico. Avalia, investiga o que pode haver de clínico por trás, prescreve medicamento quando entende que é o caso e acompanha o efeito dele. É também quem indica internação, nas situações em que ela é necessária.

São dois trabalhos diferentes sobre a mesma pessoa, e um não é a versão mais séria do outro.

A psicóloga também avalia e chega a um diagnóstico psicológico

É aqui que a confusão costuma nascer, então vale ser precisa.

A avaliação psicológica é um processo estruturado de investigação, com métodos, técnicas e instrumentos próprios, feito para reunir informação que sustente uma decisão. O diagnóstico psicológico é função privativa do psicólogo desde a lei que regulamentou a profissão no Brasil, em 1962, e o uso profissional dos testes psicológicos é privativo de quem tem registro no CRP.

Os dois diagnósticos existem e respondem perguntas diferentes. O diagnóstico psicológico descreve como você está funcionando: o que dispara o sofrimento, o que o mantém, como isso aparece nas suas relações e no seu trabalho. O diagnóstico de doença, que a medicina chama de nosológico, nomeia um quadro clínico. O próprio Conselho Federal de Psicologia registra por escrito que são coisas distintas.

O que o psicólogo não faz é prescrever medicamento nem indicar internação. É aí que a fronteira está, e ela é mais estreita do que a internet sugere.

Erro comum: tratar como se fosse ou um, ou o outro

Um livro de referência sobre tratamento combinado abre com duas cenas, lado a lado.

Na primeira, uma mulher está em terapia há meses por uma depressão grave. Ela acorda às quatro da manhã quase todos os dias e o desempenho no trabalho já está em risco. A terapeuta não sugere avaliação médica, porque entende que a depressão tem um motivo claro na história dela.

Na segunda, um homem sai da consulta com uma receita e com a informação de que faz sentido estar ansioso, dadas as circunstâncias. Ninguém menciona terapia. A essa altura ele já parou de sair de casa.

Nos dois casos a pessoa recebeu metade do cuidado de que precisava. Em nenhum dos dois houve má-fé. O erro foi o mesmo dos dois lados: tratar como escolha uma coisa que muitas vezes é soma.

Conversar no WhatsApp

Quando vale procurar avaliação médica também

Não existe régua que sirva para todo mundo, e nenhum artigo consegue dizer isso sobre o seu caso. O que costuma indicar que vale incluir um médico na conversa:

  • Sono muito alterado por semanas seguidas, dormindo demais ou acordando de madrugada sem conseguir voltar
  • Sintoma físico que não passa e que ainda não foi investigado por ninguém
  • Sofrimento intenso que não cede, mesmo com as mudanças que você já tentou
  • Perda ou ganho de peso importante sem que você tenha mudado nada de propósito
  • Dificuldade de dar conta do básico do dia, como as tarefas de casa, os estudos ou o trabalho

Nada disso é um veredito. É motivo para investigar, e investigar costuma reduzir o que a imaginação preencheu sozinha.

Se estiver pensando em morrer ou em se machucar.
Isso não é assunto para esperar consulta. Ligue para o CVV no 188, que é gratuito e funciona 24 horas, ou vá a um CAPS ou pronto-socorro. Contar para alguém em quem você confia também conta como ajuda.

Mito ou verdade sobre psicólogo e psiquiatra

"Só o psiquiatra faz diagnóstico."
Mito, e é o mais repetido de todos. O diagnóstico psicológico é função privativa do psicólogo por lei, e a avaliação psicológica é regulamentada pelo Conselho Federal de Psicologia. O que não é atribuição dele é prescrever medicamento nem indicar internação.

"Dá para fazer terapia e tomar remédio ao mesmo tempo."
Verdade. Muita gente faz os dois, e há quadros em que os dois tratamentos costumam ser indicados juntos.

"O remédio resolve sozinho."
Depende do caso, e há uma observação comum na literatura sobre tratamento combinado: quem recebe só a receita, sem espaço nenhum para falar do que está vivendo, tende a abandonar o tratamento.

"O psicólogo pode ajudar a diminuir a medicação."
Mito, e esse é importante. Ajuste de dose e retirada são decisão de quem prescreve, sempre, e a conversa é com o médico. O que a terapia faz é trabalhar o sofrimento e ajudar você a levar as suas dúvidas para aquela consulta.

Como a TCC trabalha junto com o tratamento médico

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, a primeira etapa é uma avaliação que serve para entender o que está acontecendo e montar um plano. É nela que se define a frequência dos encontros, o tamanho provável do trabalho e se há indicação de tratamento junto, medicação inclusive.

Quando o paciente já tem psiquiatra, eu trabalho em conjunto. Quando não tem e a avaliação indica que faz sentido, eu encaminho. Cada um cuida da parte que é sua, e a terapia trabalha o que mantém o problema de pé.

Como costumo explicar aos meus pacientes

Quando alguém começa comigo achando que vai ter que escolher entre um e outro, e isso acontece bastante, eu uso uma analogia de obra.

O psiquiatra é o engenheiro. Ele olha a construção pela parte química e pelo funcionamento do cérebro, e é ele quem indica o que vai agir ali. O psicólogo é o mestre de obras. Está na obra do fundamento até a laje, semana após semana, levantando cada etapa: os primeiros passos para voltar a fazer as coisas, o reconhecimento das distorções de pensamento, as técnicas cognitivas e depois as comportamentais.

A analogia tem um limite, e ele importa. Numa obra existe uma hierarquia entre os dois, e aqui não existe. São duas especialidades diferentes trabalhando na mesma casa, cada uma com aquilo que a outra não faz.

Chegar à parte química pelo caminho da terapia é possível, e leva tempo. A medicação chega lá por outro caminho, e é por isso que os dois se somam em vez de se substituir.

Tem uma segunda coisa, e ela vem da frequência. Eu vejo a pessoa toda semana, e a consulta médica acontece em intervalos maiores. Isso não torna ninguém melhor que ninguém, só faz com que cada um enxergue coisas diferentes.

O transtorno bipolar é o exemplo mais claro que eu conheço. O episódio de hipomania costuma ser curto, e pode simplesmente não coincidir com a semana da consulta médica. Quando isso acontece, o quadro se parece muito com depressão. Se esse episódio aparece durante o acompanhamento semanal, eu levo a informação ao psiquiatra, ele cruza com o que observou, e o diagnóstico muda de rumo. Não é um profissional corrigindo o outro. São duas janelas diferentes sobre a mesma pessoa, e é por isso que a conversa entre elas vale tanto.

Conversar com a Elaine

Quando procurar ajuda

Não é preciso estar no fundo do poço para começar, e não é preciso ter resolvido essa dúvida antes. Se o sofrimento já dura semanas e você percebe que vem adiando por não saber a quem recorrer, a própria indecisão já é motivo para marcar.

Se você não souber por qual dos dois começar, comece por qualquer um, e quem te atender primeiro encaminha para o outro quando for o caso. A exceção é quando há risco ou alteração intensa no corpo ainda não investigada, e aí a avaliação médica vem antes. Os temas que atendo estão em especialidades.

Resumindo

  • Os dois cuidam de saúde mental, e o que a psicóloga não faz é prescrever medicamento nem indicar internação
  • A psicóloga avalia, aplica testes psicológicos e chega a um diagnóstico psicológico, que descreve como a pessoa está funcionando
  • O diagnóstico de doença, feito pela medicina, responde outra pergunta, e um não substitui o outro
  • Na maioria das vezes a pergunta não é qual dos dois, é se você precisa de um ou dos dois
  • Se não souber por onde começar, comece por qualquer um dos dois, com uma exceção: havendo risco ou alteração intensa no corpo, a avaliação médica vem antes

Perguntas frequentes

Como saber se eu preciso de psicólogo ou psiquiatra?

Pela intensidade e pelo tipo de sintoma, e isso nem sempre dá para medir de fora. Sofrimento que atrapalha o dia a dia pede avaliação de qualquer forma. Quando há alteração forte de sono, de apetite, de peso, ou sintoma físico ainda não investigado, vale incluir um médico. Na dúvida, comece pelo que for mais fácil de conseguir e deixe o profissional te orientar.

Devo procurar o psicólogo ou o psiquiatra primeiro?

Fora das situações de risco, não existe ordem obrigatória, e você não precisa acertar essa escolha para começar. Na prática, o que costuma decidir é o que estiver ao seu alcance mais rápido, seja pela agenda, pelo acesso ou pelo custo. O que não funciona é adiar os dois esperando descobrir qual era o certo.

Quem trata ansiedade, o psicólogo ou o psiquiatra?

Os dois tratam, por caminhos diferentes. A psicoterapia trabalha o que alimenta a ansiedade e o que você faz para escapar dela, que é justamente o que a mantém. O psiquiatra pode prescrever medicação quando avalia que é o caso. Em muitos casos os dois andam juntos por um tempo, e depois a terapia segue sozinha.

Preciso dos dois ao mesmo tempo?

Nem sempre. Muita gente faz só terapia e caminha bem, e outras precisam dos dois por um período. Isso se define na avaliação, não antes dela. Se você já toma medicação e não faz terapia, vale conversar sobre incluir o acompanhamento psicológico, porque ter onde falar do que se está vivendo costuma ajudar a sustentar o tratamento.

Quando quiser conversar sobre isso

Se a dúvida sobre qual porta bater continua, ela é uma das primeiras coisas que a consulta inicial ajuda a esclarecer.
Sou psicóloga, atendo por videochamada no Brasil e no exterior, faço avaliação psicológica e emito os documentos que ela gera, quando o caso pede.
A primeira consulta dura até 2 horas e custa o mesmo que uma sessão comum, porque é nela que eu entendo a sua história e a gente decide junto o caminho, incluindo a necessidade de encaminhamento médico.

Conversar no WhatsApp

Se preferir entender antes como funciona, veja como é a terapia online comigo. Se a sua dúvida é sobre o tamanho do trabalho, o artigo sobre quantas sessões de terapia são necessárias responde isso, e o texto sobre distorções cognitivas mostra com o que a terapia trabalha na prática.

Foto da psicóloga Elaine Cristina Zuchi

Elaine Cristina Zuchi

Psicóloga · CRP-12/16897 · Neuropsicopedagoga

Psicóloga clínica na abordagem da Terapia Cognitivo-Comportamental. Atende adultos e adolescentes, 100% online, no Brasil e no exterior. Conheça a trajetória da Elaine.

De onde vêm as informações deste artigo
  • Combinando Terapia Cognitivo-Comportamental e Medicamentos, de Donna Sudak, de onde vieram as duas cenas de encaminhamento contadas no texto
  • Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática, de Judith Beck, sobre o que a sessão de avaliação define
  • Conselho Federal de Psicologia, Resolução nº 06/2019 e Resolução nº 31/2022, sobre a avaliação psicológica e a distinção entre diagnóstico psicológico e diagnóstico de doença
  • Lei nº 4.119/1962, artigo 13, sobre o diagnóstico psicológico como função privativa

Este conteúdo é informativo e não substitui o acompanhamento psicológico profissional. Se você está passando por um momento difícil e precisa de apoio imediato, ligue para o CVV no 188 (gratuito, 24h).

WhatsApp