Relacionamentos

Não consigo ter relação: quando o medo da dor vem antes da dor

Você quer. Gosta da pessoa, o desejo está lá, e ainda assim o corpo trava.
Ou já nem quer mais, porque querer virou sinônimo de doer.
Às vezes dói e você segue mesmo assim, porque parece que é o que se espera.
Às vezes nem chega a doer, e o medo de que doa já basta para tudo parar.
E vem a pergunta que quase ninguém faz em voz alta: será que tem algo errado comigo?

A resposta curta: você não está quebrada, e o que acontece com você tem nome. Existe um quadro reconhecido que reúne dor, medo da dor e tensão involuntária dos músculos, e ele não é frescura nem falha sua. A parte que costuma faltar é que o medo participa do problema, o que não significa que a dor seja imaginada. É o contrário disso: a dor é real, e é justamente por ser real que o corpo aprende a se proteger antes.

Antes de seguir, uma linha que precisa vir cedo.
Se existe violência na relação, o assunto é outro, e é urgente. O próprio manual exclui esse diagnóstico quando as dificuldades são consequência de violência do parceiro ou de um desgaste grave da relação. Sexo sob pressão, medo do que acontece se você disser não, ou dor que continua porque parar não é uma opção segura não são um quadro sexual a tratar: são segurança.

Violência também não é só a agressão física ou sexual. A Lei Maria da Penha reconhece cinco formas, e a psicológica inclui ameaça, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante e o controle sobre as suas decisões. As outras são a física, a sexual, a patrimonial, que mexe no seu dinheiro e nos seus bens, e a moral.

A Central de Atendimento à Mulher atende no 180, o Disque Direitos Humanos no 100, que atende qualquer pessoa, a emergência é o 190, e a delegacia registra a ocorrência. Se alguém tem acesso ao seu celular, vale abrir esse tipo de conteúdo em outro aparelho.

O que é vaginismo, dispareunia e dor na penetração (e por que o nome mudou)

Você provavelmente já ouviu falar de vaginismo, e talvez de dispareunia, que é o nome antigo da dor durante a relação. O manual diagnóstico que usamos hoje reúne isso num quadro só, chamado transtorno da dor gênito-pélvica e da penetração.

Ele descreve quatro dificuldades, e elas costumam aparecer misturadas:

  • A penetração vaginal em si, que não acontece ou acontece com muita dificuldade
  • Dor intensa na vulva, na vagina ou na pelve durante a relação ou nas tentativas
  • Medo ou ansiedade intensa dessa dor, antes, durante ou depois
  • Tensão acentuada dos músculos do assoalho pélvico nas tentativas de penetração

Repare que o medo entra na própria definição, ao lado da dor. Isso é como o quadro é descrito, e não interpretação minha.

E o diagnóstico não se fecha por essa lista. Além dela, o manual pede que isso dure cerca de seis meses e cause sofrimento de verdade, e pede que se descarte o que é explicado por outra coisa. Reconhecer-se em um item não fecha conta nenhuma, e é justamente esse trabalho que a avaliação faz.

E vale saber que isso não se limita ao sexo: para muita gente, a mesma dificuldade aparece no exame ginecológico e no uso de absorvente interno.

Quero falar sobre isso

Por que o medo vem antes, e o que ele faz

O manual descreve algo que ajuda a entender o que acontece no seu corpo: a tensão do assoalho pélvico vai de um espasmo reflexo até uma proteção muscular em resposta à dor antecipada, à dor já vivida antes, ao medo ou à ansiedade. Ou seja, o músculo se prepara para o que ele aprendeu a esperar.

Ele registra também que o medo intenso de sentir dor é relato comum de quem sente dor com frequência, e que isso costuma levar a evitar situações sexuais e íntimas. E descreve esse padrão de evitação como parecido com o que se vê nos medos fóbicos.

Existe um modelo bem descrito na literatura da dor, e ele não foi escrito sobre este quadro, foi escrito sobre dor crônica em geral. Prefiro dizer isso a apresentar o modelo como explicação fechada. Nele, interpretar a dor como ameaça leva a temer as sensações e a evitar. O corpo entra em modo defensivo, e isso inclui tensionar a musculatura antes do movimento. A atenção fica hipervigilante, e sensações pequenas passam a ser lidas como grandes. E a evitação retira as chances de a expectativa ser corrigida pela experiência.

Fica então uma coisa que gira: a dor ensina o medo, o medo aumenta a tensão, a tensão aumenta a dor, e evitar mantém tudo no lugar. Nada disso quer dizer que "é da sua cabeça". Quer dizer que existe um circuito, e que circuito tem por onde ser desmontado.

O que a psicologia faz, e o que ela não faz

O que ela não faz, primeiro, porque isso importa mais. A psicologia não avalia o seu corpo e não substitui exame. A avaliação da musculatura pélvica é feita com mais eficiência por quem tem formação para isso, e o próprio manual diz que ela costuma ser mais bem conduzida por um ginecologista ou por um fisioterapeuta de assoalho pélvico. Existem condições médicas que causam ou mantêm a dor, e algumas delas precisam de tratamento próprio.

Por isso, na maioria dos casos, este é um trabalho conjunto: a avaliação do corpo é feita por quem tem formação para isso, ginecologia ou fisioterapia de assoalho pélvico, e é dali que sai a conduta física, se houver. A psicologia cuida do circuito de medo, expectativa e evitação, e do que a experiência já custou a você. A página de especialidades mostra como esse tema entra no meu atendimento.

O que a terapia trabalha é o que você espera que aconteça, o que você faz por antecipação, o quanto a experiência mexe com a forma como você se vê, e o que se passa entre você e a outra pessoa. Não é pouco: o manual registra que muitas mulheres relatam que os sintomas reduzem de forma importante os sentimentos ligados à própria feminilidade, e que vergonha e sensação de inadequação costumam vir junto e agravar o sofrimento.

Registra também o peso do que se aprende por fora: a pressão para tratar o sexo como algo que deveria ser fácil e natural, e a expectativa de priorizar o desejo do outro, influenciam como a pessoa interpreta a própria dor e se ela procura ajuda. Numa pesquisa citada pelo manual, só metade das mulheres com essa dor procurou tratamento, e quem procurou frequentemente relatou ter se sentido estigmatizada.

Você vai notar que este artigo não traz exercício nenhum. Isso é de propósito. Existem condutas descritas na literatura para esse quadro, e todas elas envolvem o corpo, o tempo certo e o acompanhamento de quem está avaliando você. Não é coisa que eu publique para quem eu não avaliei.

Conversar com a Elaine

Mito ou verdade: vaginismo é psicológico

Essa pergunta costuma esconder outra: se é psicológico, a dor é inventada.

Não é. O que existe é um circuito em que dor, medo e tensão muscular se alimentam, e por isso o cuidado costuma passar pelo corpo e pela cabeça ao mesmo tempo. Chamar de psicológico, do jeito que a palavra é usada por aí, atrapalha mais do que explica: vira sinônimo de "não existe", quando o que ela deveria dizer é que existe uma parte do problema que se trata conversando.

O que costuma vir junto, e não é culpa de ninguém

Duas coisas aparecem com frequência e merecem ser ditas sem rodeio.

A relação entra na conta. O manual pede que se avaliem também os fatores do relacionamento, incluindo como o parceiro responde à dor. Respostas negativas de quem está do outro lado estão entre os fatores que podem agravar e manter os sintomas. Não é raro que a dificuldade sexual e o desgaste da relação se alimentem, e a procura por ajuda costuma demorar.

A ansiedade anterior pesa. Quem já tinha quadros de ansiedade ou de humor tem cerca de quatro vezes mais chance de desenvolver esses sintomas. Se esse é o seu caso, o assunto é mais amplo que o quarto.

E existe um ponto que precisa ser dito com cuidado dos dois lados. Mulheres com esse quadro relatam com mais frequência história de abuso sexual ou físico do que mulheres sem ele, e o mesmo manual faz questão de registrar que nem todas têm essa história. As duas metades importam: se você viveu algo assim, isso tem lugar no cuidado e não precisa continuar guardado. Se você não viveu, a sua dor não fica menos real nem sem explicação por isso. E se falar disso é difícil e você quer conversar com alguém antes, o CVV atende no 188, de graça e 24 horas.

Quando o caminho é outro

Existem situações em que tratar "a dificuldade dela" seria o erro, e elas precisam estar escritas aqui.

Além da violência, que ficou lá em cima, existe outra situação em que o rótulo não se aplica, e saber disso poupa muita autocobrança: quando a dificuldade vem de estimulação insuficiente ou de uma relação sem preliminares e sem conversa, o problema é real e não é um transtorno seu.

Com a condição médica é diferente, e vale entender por quê. Ela é frequente aqui, e às vezes tratá-la já alivia o quadro, o que por si só justifica a consulta. Na maior parte das vezes, porém, isso não basta, e não existe exame que diga o que veio primeiro. Por isso os dois cuidados costumam andar juntos, em vez de um ficar esperando o outro.

Quando procurar ajuda

Vale procurar quando isso já dura meses, quando você passou a evitar situações de intimidade para não chegar perto do assunto, ou quando a ideia da consulta ginecológica virou algo que você adia por medo.

Vale também quando a relação começou a sofrer, quando você se pega dizendo que tem algo errado com você, ou quando a dor mudou a forma como você se vê.

E vale dizer uma coisa sobre esperar: o manual registra que, depois de a situação estar estabelecida por cerca de seis meses, a chance de melhorar sozinha diminui. Não é para assustar, é para tirar de você a ideia de que procurar ajuda agora é exagero.

Resumindo

  • Dor na relação e medo da penetração têm nome, e não são frescura nem falha sua
  • O medo faz parte da definição, e isso não quer dizer que a dor seja imaginada: o músculo se protege do que aprendeu a esperar
  • Evitar alivia na hora e mantém o circuito, porque a expectativa nunca chega a ser corrigida pela experiência
  • Na maior parte dos casos o cuidado é conjunto: a avaliação do corpo com quem é da área, e a psicologia no circuito de medo, expectativa e evitação
  • Quando existe violência na relação, o assunto não é sexual, é segurança

Perguntas frequentes

Não consigo ter relação com meu marido, isso tem tratamento?

Tem, e costuma envolver mais de um profissional. A avaliação médica é parte do caminho, porque existem condições que causam dor e pedem tratamento próprio, e a avaliação da musculatura é feita por ginecologia ou por fisioterapia de assoalho pélvico. A psicologia trabalha o medo, a expectativa de dor, a evitação e o que isso já mexeu em você e na relação.

Dor na relação é normal?

Desconforto pontual acontece. Dor que se repete não é algo a suportar, e não é o preço de ter uma vida sexual. Quando ela vira regra, ou quando o medo dela já organiza o que você faz e deixa de fazer, é assunto para avaliação.

Preciso ir ao ginecologista antes de fazer terapia?

A avaliação médica é importante e não precisa ser uma corrida: dá para começar os dois caminhos em paralelo. Se o exame ginecológico é justamente o que você evita por medo, isso já é parte do que a terapia trabalha, e não um pré-requisito para começar.

Meu parceiro pode participar?

Pode, e em muitos casos ajuda. Como a outra pessoa responde à dor influencia o quadro, e é comum que ela também esteja perdida, com medo de machucar ou lendo a recusa como rejeição. Isso se conversa e se combina, caso a caso.

Quando quiser conversar sobre isso

Se você chegou até aqui, provavelmente já adiou essa conversa algumas vezes, e sabe o quanto ela é difícil de começar.
Sou psicóloga, trabalho com Terapia Cognitivo-Comportamental e atendo por videochamada no Brasil e no exterior.
A primeira consulta dura até 2 horas, custa o mesmo que uma sessão comum, e serve para entender o que está acontecendo e desenhar o caminho junto com os outros profissionais que já acompanham você.

Falar com a Elaine

Se o que mais pesa é o desgaste da relação, veja crise no casamento. E se dizer não é a parte difícil, o artigo sobre impor limites trata disso.

Foto da psicóloga Elaine Cristina Zuchi

Elaine Cristina Zuchi

Psicóloga · CRP-12/16897 · Neuropsicopedagoga

Psicóloga clínica na abordagem da Terapia Cognitivo-Comportamental. Atende adultos e adolescentes, 100% online, no Brasil e no exterior. Conheça a trajetória da Elaine.

De onde vêm as informações deste artigo
  • DSM-5-TR, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da American Psychiatric Association, capítulo de disfunções sexuais, sobre os critérios do quadro, sobre a avaliação da musculatura pélvica por ginecologista ou fisioterapeuta, e sobre as situações em que o diagnóstico não se aplica
  • Psicoeducação em Terapia Cognitivo-Comportamental, capítulo sobre disfunções sexuais, sobre o que a psicoterapia trabalha nesse tema
  • Manual Clínico dos Transtornos Psicológicos, organizado por David H. Barlow, capítulo sobre dor crônica, de onde vem o modelo de medo e evitação da dor, que é descrito para a dor em geral e não para este quadro
  • Organização Pan-Americana da Saúde, saúde sexual e reprodutiva, fonte institucional sobre o tema

Este conteúdo é informativo e não substitui o acompanhamento psicológico profissional. Se você está passando por um momento difícil e precisa de apoio imediato, ligue para o CVV no 188 (gratuito, 24h).

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