Autoestima

Baixa autoestima: o que é, o que causa e como melhorar

Não é frescura, não é falta de gratidão e não se resolve com elogio. De onde vem essa forma de se enxergar, e o que a terapia faz com ela.

Você é a pessoa que os amigos procuram quando precisam de conselho, e ainda assim tem certeza de que, se te conhecessem de verdade, iam embora. Você olha uma vaga que sabe fazer e não se candidata. Recebe um elogio e sente vergonha.

Por fora, nada disso aparece. Por dentro, existe uma frase antiga sobre quem você é, e ela nem parece opinião. Parece descrição.

A resposta curta: baixa autoestima é quando as crenças negativas que você tem sobre si mesmo ficam ativas quase o tempo todo, e as positivas quase nunca aparecem. Elas costumam ser frases de "tudo ou nada", do tipo "sou inadequada", "não mereço ser amado", e foram formadas cedo, muito antes de você poder discutir com elas. Não é frescura, não é falta de gratidão e não é diagnóstico. É um jeito aprendido de se enxergar, e por isso pode ser trabalhado.

O que é baixa autoestima (e o que ela não é)

Autoestima é o valor que você atribui a si mesmo. Não é o que você conquistou, é o que você acredita ser. Por isso alguém pode ter currículo, elogio e afeto em volta, e mesmo assim se sentir insuficiente. Os dois não se falam.

O que a baixa autoestima não é:

  • Não é modéstia: quem é modesto sabe do próprio valor e não precisa anunciá-lo. Quem tem baixa autoestima não acredita que ele exista
  • Não é timidez: dá para ser tímido e gostar de si, e dá para ser extrovertido e se detestar em silêncio
  • Não é falta de gratidão: a pessoa costuma reconhecer o que tem de bom na vida, ela só não se inclui nessa lista
  • Não é um diagnóstico: baixa autoestima não é transtorno nem doença, e não está no manual como categoria própria. Ela atravessa vários quadros, principalmente a depressão

O que causa a baixa autoestima

Quase sempre a resposta começa na infância, e não porque isso seja bonito de dizer. É porque criança não tem como duvidar.

Aprendemos sobre nós pelo que ouvimos das pessoas em volta, e uma criança aceita tudo com o mesmo peso. "O céu é azul", "isso é um cachorro", "você não presta". As três frases entram como fato, e ela não tem ainda a flexibilidade mental para separar o que é descrição do mundo do que é o mau humor de um adulto cansado.

Só que não é preciso ninguém dizer nada. Boa parte dessas frases a criança escreve sozinha, tirando conclusões do que vive: o irmão mais velho recebe um tratamento diferente, o primo esportista é mais celebrado, o esforço dela passa batido. Ela precisa dar sentido a isso e chega à explicação mais disponível, que é sobre ela mesma. "Não sou tão boa quanto." Com os anos, aquilo se guarda como "não sou boa", sem o "tão quanto", sem contexto, sem data.

Outras origens comuns: comparação constante, ambientes muito exigentes onde nada bastava, rejeição, humilhação, bullying e experiências difíceis na vida adulta, que não criam a crença do zero mas confirmam a que já estava lá.

O ponto que costuma aliviar quem escuta isso: a crença não é um defeito seu. Ela foi a melhor conclusão possível para uma criança com as informações que tinha. O problema é que ela continua rodando décadas depois, com informação nova disponível e ninguém revisando.

Sintomas de baixa autoestima: como ela aparece

Ela raramente se anuncia. Aparece assim:

  • Você não aceita elogio. Devolve, minimiza ou desconfia
  • Você se compara o tempo todo, e a comparação sempre termina do mesmo lado
  • Você não pede: aumento, ajuda, o que precisa numa relação. Pedir parece cobrar algo a que você não tem direito
  • Você aceita menos do que gostaria e chama isso de ser realista
  • Você tem medo de que descubram que você não é tudo aquilo
  • Você se antecipa à rejeição, saindo antes de ser deixado, ou não se aproximando
  • Um erro pequeno estraga o dia inteiro, porque ele confirma a frase antiga

Note o padrão: a crença não fica só na cabeça, ela organiza o comportamento. E o comportamento produz a prova. Quem acredita que não merece ser amado se afasta, é menos procurado, e conclui que estava certo desde o começo.

Se você se reconheceu nos sintomas acima, dá para trabalhar isso com método, e não com força de vontade.

Quero começar por aqui

Mito ou verdade sobre autoestima

"É só se elogiar mais no espelho." Mito. Repetir "eu sou incrível" sem acreditar não muda crença nenhuma, e para muita gente piora, porque escancara a distância entre a frase e o que se sente. A mente não compra afirmação, ela responde a evidência.

"Quem tem baixa autoestima não gosta de nada em si." Mito. Quase sempre a pessoa reconhece qualidades. O que ela faz é desqualificá-las na hora: foi sorte, qualquer um faria, não conta.

"Todo mundo tem crenças negativas sobre si." Verdade, e essa é a parte que costuma surpreender. Ter uma crença do tipo "sou um fracasso" não é anormal. Todos temos crenças negativas e positivas, e elas se acendem conforme o humor. No dia bom, você comete um erro e pensa "dou um jeito". No dia ruim, o mesmo erro vira "isso prova o que eu sou". A diferença entre quem sofre e quem não sofre não é ter a crença negativa. É quanto tempo ela fica ligada, e quão fraca ficou a positiva.

"Baixa autoestima é depressão." Mito, com um pé na verdade. Não são a mesma coisa: baixa autoestima não é diagnóstico. Mas o pensamento negativo sobre si é um dos componentes centrais da depressão, e os dois se alimentam. Vale conhecer os sintomas de depressão se a tristeza também estiver presente.

Como a TCC trabalha a baixa autoestima

A Terapia Cognitivo-Comportamental enxerga o pensamento em três camadas, e isso muda a estratégia.

  • Pensamentos automáticos: as frases que passam pela cabeça na hora ("ele não respondeu, se cansou de mim")
  • Pressupostos: as regras de "se, então" que você segue sem perceber ("se eu não for útil, então não me querem por perto")
  • Crenças nucleares: o fundo do poço da pilha, as frases de tudo ou nada sobre quem você é ("sou inadequada")

Começar pela crença nuclear seria como discutir a fundação com a casa inteira em cima. Por isso o trabalho começa pelas camadas de cima, que se mexem mais rápido, e boa parte das pessoas melhora só com isso: mudando os dois níveis mais acessíveis, a crença lá embaixo se reorganiza sozinha. Quando não se reorganiza, aí sim ela vira o alvo.

E o alvo não é o que a maioria imagina. Não se trata de apagar a crença negativa, porque isso não acontece. Trata-se de fortalecer a positiva, que existe mas está fraca de desuso. Isso é feito reunindo evidência de verdade, aquela que sua atenção descarta há anos, e testando na prática comportamentos que a crença antiga proibia. Existe uma técnica útil para chegar lá, a da seta descendente: partindo de um pensamento qualquer, perguntar "e se isso for verdade, o que significa sobre mim?" até a frase de baixo aparecer. É desconfortável e costuma ser rápido.

Atendo essa queixa 100% online, no Brasil e no exterior. Se você reconheceu a sua frase antiga em algum lugar deste texto, veja como funciona o atendimento ou me chame para conversar sem compromisso.

Falar com a Elaine

Pare para pensar: a régua do tudo ou nada

Repare no formato da frase que te persegue. "Sou inadequada." "Não presto." Não é "às vezes sou inadequada em situações novas", é uma sentença absoluta, sem exceção, sem contexto e sem prazo de validade.

Nenhuma pessoa cabe numa frase dessas. Nem você, nem ninguém que você admira. A crença sobreviveu tanto tempo justamente porque nunca foi obrigada a caber na vida real, com dias bons, dias ruins e a bagunça de sempre.

Quando procurar ajuda

Vale procurar avaliação quando:

  • A forma como você se vê está decidindo a sua vida: onde você não vai, o que não tenta, quem não procura
  • Você aceita há tempos relações ou situações que te diminuem, porque no fundo acha que é o que merece. Se for esse o caso, veja também sobre impor limites sem culpa
  • A cobrança interna é diária. O texto sobre autocrítica excessiva trata dessa voz de perto
  • Vem junto tristeza persistente, perda de prazer ou cansaço que não passa

Se em algum momento aparecerem pensamentos de não querer viver, procure ajuda agora: ligue 188 (CVV, gratuito, 24 horas) ou use o chat em cvv.org.br.

Resumindo

  • Baixa autoestima é ter as crenças negativas sobre si ativas quase sempre, e as positivas quase nunca
  • Ela se forma cedo, com o que ouvimos e com as conclusões que tiramos sozinhos quando criança, e depois nunca foi revisada
  • Não é diagnóstico, mas caminha junto com a depressão e com a ansiedade
  • Elogio no espelho não resolve, porque a mente responde a evidência e não a afirmação
  • A TCC trabalha das camadas de cima para baixo, e o alvo é fortalecer a crença positiva, não apagar a negativa

Perguntas frequentes

É autoestima ou auto estima?

Escreve-se junto e sem hífen: autoestima. O prefixo auto se une à palavra seguinte quando ela começa com consoante ou com vogal diferente de o, como em autoestima, autoimagem e autocrítica. Com hífen só quando a palavra começa com h ou com a letra o, como em auto-observação.

Baixa autoestima é um transtorno ou uma doença?

Não. Baixa autoestima não é diagnóstico e não existe como categoria própria nos manuais. Ela é uma forma de se enxergar que aparece dentro de vários quadros, com mais frequência na depressão e nos transtornos de ansiedade. Isso não a torna menos séria: ela pode afetar profundamente relações, trabalho e escolhas.

Baixa autoestima tem tratamento?

Sim. A relação que você tem consigo mesmo é aprendida, e o que foi aprendido pode ser revisto. A Terapia Cognitivo-Comportamental tem um caminho estruturado para isso, trabalhando os pensamentos do dia a dia, as regras que você segue sem perceber e, quando necessário, as crenças mais antigas.

Quanto tempo leva para melhorar a autoestima?

Não existe prazo honesto para dar aqui, porque depende de há quanto tempo a crença está ativa, do que a sustenta hoje e do que mais está acontecendo na sua vida. O que costuma acontecer é o alívio vir antes da mudança profunda: as camadas mais acessíveis do pensamento se mexem primeiro, e isso já muda o dia a dia enquanto o resto vai sendo construído.

Quero começar a terapia
Foto da psicóloga Elaine Cristina Zuchi

Elaine Cristina Zuchi

Psicóloga · CRP-12/16897 · Neuropsicopedagoga

Psicóloga clínica na abordagem da Terapia Cognitivo-Comportamental. Atende adultos e adolescentes, 100% online, no Brasil e no exterior. Conheça a trajetória da Elaine.

De onde vêm as informações deste artigo
  • A mente vencendo o humor, de Dennis Greenberger e Christine A. Padesky, o guia de TCC que indico a pacientes: os capítulos sobre crenças nucleares orientam a explicação das três camadas do pensamento e a origem das crenças na infância
  • Técnicas de terapia cognitiva: manual do terapeuta, de Robert L. Leahy, um dos manuais que uso no consultório
  • Saúde mental, página oficial do Ministério da Saúde

Este conteúdo é informativo e não substitui o acompanhamento psicológico profissional. Se você está passando por um momento difícil e precisa de apoio imediato, ligue para o CVV no 188 (gratuito, 24h).

WhatsApp